Problemas domésticos e nerdices

17 de agosto de 2009

Conto Hiperrealista Surreal

Semana passada eu me dei conta de que me aproximar emocionalmente das pessoas me dava enjôo.

Tudo começou quando eu estava lendo e-mails na internet e um rapazinho com quem eu costumo trocar flertes inocentes mandou um e-mail bem simpático, sobre um show bem legal, de uma banda que ele promove. Respondi com um comentário dúbio sobre a qualidade do som da banda e as possíveis implicações disso no andamento de uma noite qualquer.

Foram-se dois dias até que me chegou uma réplica.

Ele me respondeu com um comentário um pouco mais acalorado sobre os possíveis andamentos de uma noite qualquer. O comentário era quase social, no tipo de interação que propunha e na ênfase que dava na questão filosófico-emocional. Revidei então com uma semi-proposta de cunho ininteligível, que não pretendia despertas emoções, mas sim alimentar um jogo antropológico muito conhecido de quem não se vê no time dos casados.

Desliguei, não esperei resposta. Não esperava resposta, pois tudo transcorria como deve.

Passei alguns dias repassando minha resposta no cérebro, refazendo possíveis análises semióticas da mensagem e possível consequências do ato em si.

Nisso, já ia a quarta xícara de café. Meu cérebro estava vendendo neurônios pra pagar as sinapses, sem perceber as correlações, dada a rapidez do processo. Um barato natural. O café tem essas capacidades comigo.

Resolvi que deveria reiniciar o jogo, mas com outros jogadores. Faz bem, mantém a mente saudável e ativa. Enviei comentário similar, relacionado desta vez a uma piada enviada pra uma lista de cerca de 100 pessoas, a um outro rapaz que, vai e vem, também acaba resvalando para um chiste epistemológico.

Foi-se uma semana sem olhar e-mails, trabalhando como esperado, dançando pela vida como fazem aqueles que não têm compromisso.

A volta ao computador trouxe então o enjôo. Ambos tinham respondido, ambos tinham algo a dizer sobre as bestíssimas coisas que eu achei por bem jogar na rede. A rede não era minha, note-se, pois se caiu na rede é peixe, e eu ando numas de frango.

O primeiro me chegou com dores dramáticas de quem passou uma semana à toa, esperando uma presença em tempo real de outrém. Reclamações poéticas, ainda que de um lirismo inteligente, indicando que depois de qual seja a última resposta que enviei, algo deveria ter acontecido e não. Enjoei automaticamente e quis, naquele mesmo momento, ligar a TV no Multishow e torcer para que um programa estúpido estivesse no ar. Estava passando algo interessante, e não pude assistir. Eu estava enjoada.

O segundo, menos poético mas não menos carente, indicava, por A + B, que minha resposta não poderia passar impune e que algo precisava ser feito. Que minhas recusas em atender o telefone durante aquela semana, que de fato ocorreram, eram um desacato ao tamanho do sentimento que parecia existir entre essas duas almas. De fato, eu enjoei ao ver o telefone tocar, nem precisaria da resposta em si.

Aí temos, então: duas respostas fervorosas de necessidade de contato e pertencimento. Enjôo.

Voltei às xícaras de café. Agora eu já contava seis sobre a mesa. Cada uma delas extremamente vazia de significado e líquido.

Um comentário:

Elói disse...

Muito bom! Você devia tentar mais vezes a sua mão nisso. Ficou extremamente interessante, e com um final poético.