Problemas domésticos e nerdices

16 de outubro de 2007

Think Pink!


Um dos melhores filmes de todos os tempos é "Cinderela em Paris" (Funny Face, 1958). Audrey Hepburn se fazendo de beatnik e Fred Astaire se achando o rei da foto de moda.

Eu nunca entendia a fascinação com a moda, achava uma coisa tão ridícula. Eu sempre gostei do filme pela ótima da personagem da Audrey Hepburn, de que valia fazer o esquema da moda para conseguir atingir um objetivo. E que ela era uma grande trouxa por aceitar continuar sendo modelo só para ficar perto do Fred Astaire.

Hoje eu já acho diferente.

Claro que acho que ninguém devia perder seu tempo pensando em moda no brainless way que as revistas de moda fazem. Não digo que ficar a par das tendências tem importância, nem que ter os sapatos do momento é crucial. Mas a moda é um jeito tão sagaz de analisar a personalidade e a cultura, tanto de uma pessoa como de um grupo, tribo, povo, região, or what have you.

A roupa não é um supérfluo. A roupa é obrigatória para praticamente todo e qualquer pedacinho de sociedade moderna que você imaginar. Com raras exceções indígenas (aquelas que ainda não foram contaminadas pelo "homem branco"), todos precisam de roupas. Seja um pouquinho só, como nas praias do Rio, ou em camadas, como nas montanhas da Lapônia.

Um item obrigatório para a sobrevivência está carregado de significado, mesmo quando a primeira percepção é de total descaso com aquele item. Mesmo que para um indivíduo aquela vestimenta não tenha significado especial, ela representa tradições, intenções, percepções e costumes de tudo que o cerca. Você não sai de pijama para ir à padaria, mas seu vizinho sai. Você não sai de casa sem um salto médio, para uma festa, enquanto a prima do seu melhor amigo prefere sapatilhas. Tudo está cheio de significados que vão bem além do que a In Style ou a Capricho sugerem.

A moda como representação de uma personalidade ou de um contexto cultural é tão rica, tão absurdamente esclarecedora, que pra mim ficou impossível não achar a moda algo tão fascinante.

Eu gosto de cortes de vestido e sobretudos inovadores, e de belas cores de cetim. Gosto de sapatos da Sarah Chofakian que eu nunca vou ter porque não acho correto gastar R$ 500 num scarpin. Gosto de ler Vogue, que tem 50% de conteúdo mais fútil que o da Estilo, e o resto são belas fotos excelentemente bem produzidas e matérias sobre a história da moda. Mas o melhor mesmo é pensar nas coisas que o ato de vestir provoca nas pessoas, no que a moda significa.

E, voltando a "Cinderela em Paris", eu ando pensando muito nesse filme porque eu me sinto vagamente como a Audrey Hepburn. Eu sempre fui a traça dos livros, que só gostava de ler, odiava cor-de-rosa e não ligava pras roupas, desde que fossem confortáveis. Agora eu gosto de me vestir, e acho até que exagero no que absorvo da Vogue. E topo sofrer um pouco num salto se ele me fizer sentir melhor sobre a minha silhueta. E, diferente da Audrey Hepburn, que mudou porque é uma doida apaixonada, eu mudei porque descobri algo na moda para se respeitar.

Um comentário:

Lu Mastrorosa disse...

Laurica, eu adoro esse filme! E aquela editora de moda maluca da revista? E os intelectuais "cabeça" em Montmartre? Hahahahahah! Gostei de lembrar deste filme, vou ver de novo em casa! :) beijo e saudade!